quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Viagens - 6

Londres - Janeiro 1975
Quem leu a minha saga “A tropa cá do João”, sobre a minha vida militar, estará recordado do final do último episódio, em que eu contava ter regressado a Portugal mesmo a tempo de passar o Natal com a família (a 17 de Dezembro de 1974), e que passei à disponibilidade em 15 de Janeiro de 1975.
Assim já podia viajar de novo e não esperei muito tempo; ainda nesse mesmo mês de Janeiro, aproveitando umas célebres promoções da “Abreu”, lá fui eu passar “uma semana em Londres”. 
Fui só e fui não só para desanuviar todo aquele stress acumulado ao longo de tanto tempo em África, mas também para comprar umas roupitas, pois desde há mais de dois anos e meio, a minha fatiota era quase sempre a mesma: a farda.
Ganhei umas massas lá em África - afinal era capitão – e como deixava cá o máximo possível, quando vim, deu para isso e para comprar um carrito.
Não ia a Londres há cerca de 10 anos e mais do que Londres eventualmente mudara, eu é que tinha mudado muito.
Pela primeira vez ia ao estrangeiro, assumida que estava por mim próprio, a minha sexualidade.
Como ia só, fui posto num quarto duplo com um outro tipo, mais ou menos da minha idade, um sujeito muito porreiro e com quem me entendi muito bem, e era uma pessoa completamente heterossexual..
Não andámos sempre atrelados um ao outro, mas saímos várias vezes juntos e uma noite ele perguntou-me onde eu tencionava ir, e eu fui sincero, disse-lhe que era homossexual e que queria ir a um bar gay.
Nessa altura, um dos mais conhecidos locais gay de Londres chamava-se “ Catacomb’s Club” e era aí que eu queria ir.
Ele, penso que se chamava Luís, era muito bem apessoado e surpreendeu-me quando me disse que gostava de ir comigo, pois tinha muita curiosidade em conhecer um sítio desses.
O “Catacomb’s Club” era uma discoteca, com várias divisões, e dançava-se, até slows.
Curiosa a descrição que encontrei na net sobre este local e só tenho pena de não ter encontrado uma foto.

"Catacombs was open about 1972 in Earl’s Court. It opposite the hospital on Brompton Road, Earl’s Court end. Opposite where Brompton’s is now. It was downstairs, underneath a faux Tudor cottage front on the ground floor. You go down the stairs, pay the entrance money and it had a bar… The reason it was called the Catacombs was because it actually was catacombs. The bar was on one side, there was a like a resemblance of a dancefloor at the front of the bar, as that circled round the back, there was a wall that went round the front and behind that wall was another wall and little caves set in, about four of them. Then there was a passageway around the caves. That’s where all the sex used to go on. But they played music, really good music, and there was dancing."
Lá chegados, tomámos uma bebida juntos e depois cada um foi dar um giro; qual o meu espanto quando daí a pouco o Luís apareceu com um ar um pouco assustado e me disse que tinha havido um tipo que o convidara para dançar e ele tinha fugido…
Fartei-me de rir e perguntei-lhe porque não tinha experimentado e ele deu-me uma resposta totalmente inesperada, dizendo-me que se dançasse com alguém era comigo.
Embatuquei e embora sempre me conheça como uma pessoa que não perde uma oportunidade, desta vez não reagi, apenas sorri.
Passado um par de horas voltámos ao hotel, ainda fomos tomar um banho na piscina interior aquecida e tudo se conjugava para acontecer “alguma coisa”, mas eu não tomei a mínima iniciativa e ele, claro que também não. Ainda hoje pensando em como ele era bonito e bem constituído, fico arrependido de me ter ficado apenas com as vistas…

Também fui várias vezes a um Pub gay, lindíssimo por fora e não menos bonito por dentro, perto de Leicester Square, e que estava sempre muito (bem) frequentado, quer de dia quer de noite. Chamava-se "Salisbury".
Também consegui uma interessante opinião do local:

 "The Salisbury pub - I would call this one a spectacle. Not because ale or chips are significantly different in this place, but because it is one of the most elaborate and preserved London's pubs belonging to late Victorian era. Etched glass and mirrors, rich upholstery, dark mahogany and burgundy ceiling - all contributes to the pub's dazzling and extravagant interior. End it is also the West End official sports free bar - thank you, Lord!!!"


Mas foi uma semana essencialmente para conhecer Londres, pois na primeira visita, nos anos 60 só ali estive de passagem. Vi tudo o que um turista deve ver, incluindo o British Museum e o Madame Tussaud.
E fui às compras em Oxford Street, tendo comprado entre outras coisa um casaco comprido de cabedal que fez furor aqui em Portugal.
Belos tempos, em todos os aspectos e Londres tornou-se tão apaixonante para mim, que voltei lá muitas mais vezes.

26 comentários:

  1. conheci Londres exactamente 10 anos depois, em março de 84. e acho que tive o privilégio de ainda conhecer uma Londres muito britânica, aberta ao mundo, mas dos ingleses, com hábitos e ritmos muito próprios, sem ser a amálgama multi-cultural em que depois se tornou.

    como sabes, as circunstâncias dessa primeira ida (que entre idas e vindas demorou perto de um ano) foram muito particulares, e eu não tinha cabeça (nem corpo eheh)para descobertas, apesar de ter logo percebido que a homossexualidade se vivia ali com outra liberdade de respiração.

    mais tarde, quando me livrei da doença e comecei a ir regularmente fazer o controlo, então sim, já com outra disponibilidade e muita vontade, descobri esse lado da cidade, primeiro em Camden, onde morava, depois no Soho. curiosamente nunca frequentei a zona de earls Court que foi onde tudo começou, como muito bem testemunha este teu texto.

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    1. Sim, Miguel
      nessa altura, anos 70, era em Earl's Court que estava o centro da vida gay londrina. Recordo ainda numa posterior visita um barzinho onde me fartei de dançar nos braços de um irlandês ruivo, e não passou da dança...E havia, claro o "Coleherne", também numa esquina da Earl's Court Road e que parece ainda existir, como bar de couro (é uma instituição).
      Em próximas "viagens" a Londres falarei do mítico "Heaven".
      Abraço amigo.

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  2. belas memórias, João. Londres em 75 comparada com a pequenez de Portugal...
    já lá não vou há uns bons anos, uma amiga vivia nos arredores e eu poupei uns cobres na estadia. apanhava o comboio na Victoria Station e demorava quase uns 40 minutos a lá chegar, depois fiz isso tudo que tu fizeste, museus, teatro, andar muito a pé... foram poucos dias e muitas andanças. claro que para a recompensar de ter ficado em sua casa, uma vez ofereci-lhe um lauto jantar (era ela, marido e dois filhos) e lá se foram as poupanças do hotel :D
    gostaria de lá voltar, claro.
    bjs.

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    1. Margarida
      na última vez que estive em Londres, já com o Déjan, também ficámos em casa de casais amigos, uma semana numa casa, longe do centro, mas com metro à porta e outra semana noutra casa, esta já nos arredores, perto do estádio de Twickenham (catedral do rugby) e íamos de comboio, mas era excelente estar numa povoação pequena a poucos minutos do centro de Londres e o sistema de transportes londrino é simplesmente fantástico.
      Mas lá está, no final de cada uma das semanas tive que oferecer um jantar de quatro pessoas e não podia ser num "MacDonald"; nem queiras saber as contas dos dois repastos...
      Mas e quanto teríamos gasto em 15 dias num hotel com pequeno almoço incluído?
      Beijinho.

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  3. Bom dia João
    Estou com muita dificuldade em ler e comentar o teu blog. O sistema fica bloqueado e leva muito tempo até que possa voltar a entrar.

    Lentamente vais abrindo o livro da tua vida. O teu EU que assumiste e queres viver sem limites.
    Admiro a tua coragem e felicito-te pela beleza dos textos e frescura de juventude.

    A vida vai-nos ensinando tantas coisas...
    Um abraço e que tudo continue bem contigo.

    Este ano vou publicar menos coisas ainda em lidacoelho. Uma a duas por mês.
    Menos quantidade e mais qualidade.

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    1. Luís
      não me têm chegado críticassobre o acesso ao blog, embora eu saiba que ele esta um pouco "carregado", mas já esteve mais.
      Quanto à minha vida pessoal,desde sempre fui muito aberto a falar dela aqui no blog, mas claro que não ando sempre a bater na mesma tecla.
      Gosto de falar de tudo e sobre tudo.
      Esta viagem foi muito importante porque só me assumi perante mim mesmo, enquanto estive na guerra colonial e senti-me liberto e preparado para me assumir publicamente, com calma e progressivamente, o que veio a acontecer.
      Já tinha estado antes no estrangeiro mas sempre com a noção de que queria fazer "algo" e não o fazia, ou se o fazia, de me sentir culpado de o ter feito. A partir de 1975 isso acabou. O facto de ter dito, com normalidade, ao Luís que eu era homossexual e que ia a um local gay era impossível até então.
      Abraço amigo.

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  4. Que maravilha, João.
    A narrativa em si e os momentos que lá passaste.
    Sorri muito... 'pois se ele era bonito e não te fechou a porta...'
    Estou a brincar, claro!
    Também sorri imenso com a reação dele quando foi abordado - pelo menos tinha um espírito aberto :))).
    Adoro Londres. Sonho com os museus e os teatros.
    Também adoro ler-te.
    Um abraço, amigo

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    1. Pedro
      quantas vezes na minha vida não passei por situações deste tipo: ter uma oportunidade e deixá-la fugir...Mas nunca fiquei frustrado poism tantas outras, aproveitei a ocasião com excelentes resultados.
      Mas que ainda tenho a imagem daquele Luís ali tão perto e eventualmente disponível, isso é verdade.
      Abraço amigo.

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  5. Belas memórias! Devias ter dançado com ele e depois logo se via ;)
    Também é uma cidade que adoro! Conheci-a em meados dos anos 80 e tudo aquilo fervilhava de vida. Ainda lá vivi mais de 6 meses...
    Abraço.

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    1. Pois é Arrakis, mas como sabes estas coisas acontecem sem se esperar e por vezes, ficamos sem reacção; mais tarde ao pensarmos no assunto concluimos que devíamos ter feito de outra forma.
      Abraço amigo.

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  6. Adoro Londres :)

    Adorei este post, momentos kodac e a musica fantástica

    Abraço amigo

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    1. Francisco
      a música (Blondie) é dessa época, bem como a foto de Picadilly Circus.
      Os momentos kodak (gostei da expressão) estão todos aqui bem registados na minha cabeça.
      Abraço amigo.

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    1. Não só pelas fotos, Frederico.
      Por tudo...
      Abraço amigo.

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  8. Queria ter testemunhos enriquecedores como os vários que vou lendo. Bem me dizem que sou jovem e tenho tempo, mas até esse, o tempo, acaba por passar. :|
    As tuas experiências são tão curiosas. Deverias ter tentado algo com o Luís. Gosto desse suspense, sobretudo quando é vivido. A monotonia é tão castradora...
    Btw, Oxford Street é das ruas que a mãe mais gosta em Londres... pelas compras! :)

    abraço, honey.

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    1. Mark
      É uma rua muito comercial, com os grandes armazéns, como se vê na foto, mas tem de tudo. Li algures que só nessa rua há cerca de 150 sapatarias...
      As minhas experiências, as apenas tentadas e as que realmente houve, estão na minha memória e aí permanecem bem guardadas mas bem vivas, também.
      Abraço amigo.

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  9. Ai que saudades de Londres! Há "seculos" que lá não vou...
    Soube bem esta "voltinha" através das tuas memórias:))))
    Abraço

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    1. Justine
      Londres é uma cidade que nos mostra sempre coisas novas, mesmo nos sítios clássicos.
      Em relação a esta época (1975), as diferenças são imensas, basta ver como era Picadilly Circus, e ver como a chamada zona gay mudou de Earl's Court para o centro mesmo, o Soho, West End...
      E há sempre coisas novas a visitar. Quem sonhava nesta altura com o London Eye, ou a nova zona moderna onde tiveram lugar as Olimpíadas?
      E que maravilha, visitar com quase 40 anos de diferença o "Madame Tussaud" - é um museu completamente diferente, a não ser a Câmara dos Horrores.
      E quando já se visitou o essencial, fica o resto para ver noutras visitas como o "War Museum" (fantástico) ou o bunker de Churchil durante a guerra, ali mesmo em Westminster.
      Enfim, Londres é uma cidade que nunca cansa.
      Beijinho.

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  10. ahahahaha nunca te imaginei a dizer: Bem, vou a Londres comprar umas roupitas... :-D e compras em Oxford street, ah LUXOOO :-D
    Ando ansioso para lá ir, espero ir este ano, nunca lá fui...e uma coisa é certa, vou a esse pub! É que definitivamente!!

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    1. Ima
      tens que te enquadrar na época, quando saí da tropa e tinha dinheiro, pois o que lá ganhava, nada gastava, e fui realmente fazer umas "compritas", principalmente em Oxford Street; mas não penses que o comércio nesta rua é de luxo...Há de tudo, como os grandes armazèns, como o "Selfridges", na foto, até à lojas muito populares. Só para te dar um exemplo, na última vez que estive em Londres (com o Déjan) só comprei lá uns ténis, todos brancos, super confortáveis e que custaram 10 libras e ainda hoje calço com frequência.
      Tens mesmo que ir a esta cidade e tens que "dar muito à sola", para ver algumas das coisas que são essenciais, mas prepara uns "trocos"...
      Quanto ao "Salisbury", penso que ainda existe hoje, lindo como sempre e é facilmente encontrado quando fores visitar a zona de Covent Garden, mas já não será aquele lugar predominantemente gay como era em 1975. Hoje deve haver por lá mais turistas (por causa de Covent Garden) do que os tradicionais frequentadores dos pubs londrinos.
      Abraço amigo.

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  11. Curiosamente, tanto eu como o P já fomos a Londres, antes de nos conhecermos, por isso a capital inglesa nunca apareceu no nosso roteiro. Gosto muito da cidade, da eficiente rede de transportes e dos museus acessíveis. Claro que os preços de alojamento e refeições são proibitivos, mas nunca precisei de recorrer a eles, felizmente.
    Depois de ir lá mais de uma dúzia de vezes, deixei de ir repentinamente, há uns 6 anos. Muita coisa deve ter mudado, afinal houve os Jogos Olímpicos e mais não sei o quê, e a cidade está em constante mudança. É um projeto a pensar (mais um...).

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    1. Coelho
      em Londres, e também apenas desta vez que aqui relato, fiquei num hotel. De resto tenho ficado sempre em casa de amigos, que conheci principalmente através do Duarte, o meu Amigo com quem compartilho o apartamento desde há quase 17 anos, e com quem visitei Londres variadas vezes.
      Ainda na última vez ficámos, o Déjan e eu, uma semana numa casa, e outra semana, noutra casa, ambas de casais que vivem juntos "há séculos" e que nos recebem sempre com um gosto não forçado.
      E digo-te, que Londres, pelo menos para mim, é uma cidade que prefiro visitar, uma vez mais, do que ir conhecer algumas outras cidades.
      Outra cidade muito "abandonada" por mim é Paris...Há quanto tempo lá não vou, e o Déjan nunca lá foi, pelo que adorava mostrar-lhe uma das mais belas cidades que conheço. Mas aí, não tenho amigos onde ficar, e a estadia, já sabes como é...
      Já foste a Londres, o P. tmbém já foi; mas nunca lá foram os dois juntos, para mostrarem um ao outro aquilo que cada um de vocês "não viu", e em Londres há sempre alguma coisa que ainda não se viu.
      Abraço amigo.

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  12. Londres é simplesmente fantástica. E nos idos da década de 70, para quem ia de Portugal deveria parecer outro mundo. É muito engraçado este teu relato da viagem.
    Só conheci Londres no início da década de 90. Francamente era uma cidade que nunca me tinha seduzido e por isso fui deixando sempre para depois. Naquela oportunidade calhou, lá fui e simplesmente adorei. Já lá voltei mais uma 3 vezes. Visto que o alojamento é efectivamente muito caro, de todas as vezes fiquei naqueles hotéis BED and BREAKFAST que se arranjam ainda em Heathrow.
    Porém, apesar de cada vez mais moderna, a cidade tem perdido (eu acho) muita da sua casticidade.


    Um abraço de amizade

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    1. Lear
      tenho que começar a adoptar esses alojamentos BED and BREAKFAST, não em Londres, mas sim noutras cidades, pois imagino que também haverá por exemplo em Paris.
      Londres tem-se modernizado, é certo, mas em zonas especiais, que não chocam com aquelas casticidades, como lhe chamas, nos locais do centro.
      E depois, sendo Londres uma cidade enorme, tosos os sítios são fáceis para se lá chegar, pois a rede de transportes é fabulosa, quer o metro, os autocarros e os combóios.
      Eu adoro Londres!
      Abraço amigo.

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  13. Não conheço e apesar de teres dado uma imagem convidativa da cidade não me atrai como nunca me atraiu a Inglaterra. Conheço gente que emigrou para lá e dizem maravilhas de Londres. Beijinhos

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    1. Mary
      se conhecesses Londres, ficarias de imediato conquistada, não tenho dúvida alguma.
      Beijinho.

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